A pompa erudita e o mercado lascado

Uma breve reflexão sobre as pedras no caminho do mercado editorial

Carlos Garcia Fernandes, 47 anos, produtor de conteúdo multimídia

Se você não lê os grandes nomes da literatura mundial, o que você lê? Só livro técnico?

Esse tipo de pergunta eu ouvi de algumas pessoas que conhecem profundamente literatura, em tom de quem está investigando um ser inferior.

Não se exige que alguém conheça todas as profissões do mundo, mas quando essa pergunta vem de alguém que trabalha ou é dono de uma editora, então é uma pergunta idiota.

Exercendo a minha profissão dentro do ramo editorial, sei bem o que é um livro técnico e francamente, dizer que Santaella e Suassuna escreveram livros técnicos é uma tremenda ignorância dos que amam Sartre. Só classifico assim por um fato… vi isso mais de uma vez.

Paralisia

O que ainda vejo? Vejo os eruditos, do alto das suas traças dizendo que internet não funciona. Vejo gente mais nova seguindo a cartilha do marketing dizendo que deve-se vender livros como se vende um liquidificador, pois a jornada do cliente blá, blá, blá…

Presenciei editoras adquirindo sistemas caros de marketing e no ano seguinte admitindo que foi dinheiro queimado, pois não entenderam que a solução para cada empresa passa pela personalização do sistema, e não a repetição da ação da loja de vender pregos. Tentaram novamente? Não, pois a barreira do ego e a preguiça os impede de pensar em soluções de longo prazo.

Neste momento ouço a mesma gritaria de sempre, dizendo que depende de QUEM gerenciou o sistema de marketing, pois se deu errado é porque a empresa fez errado, como se existisse uma solução milagrosa que não passe pelo desenvolvimento e trabalho duro.

Admitir o próprio erro é o primeiro passo para encontrar soluções, mas o ego erudito é inabalável, pois consideram todos os outros como “trabalhadores braçais”, “trabalho técnico”. Para eles, o designer gráfico não pensa, os publicitários saem das diversas graduações todos “pasteurizados”, e se algo dá errado, eles dizem que todos são muito burros, pois não entenderam o que foi explicado. Só estou contando o que presenciei.

O mundo mudou

Durante um tempo no nosso país, o povo tinha dinheiro que permitia comprar o pacote de arroz e o livro, o que derrubou o mito (mais um) de que brasileiro não se interessa por livros. Essa questão sempre foi vomitada do alto da latrina erudita, e se provou falsa. O brasileiro se interessa por livros sim, foi provado. O crescimento das compras do governo daquela época, puxou uma onda toda nova de consumo de livros, então as editoras conseguiram emplacar outros setores diferentes do setor de educação.

Fortaleceu-se o financiamento coletivo para autores independentes e a venda itinerante. Novos métodos de produção de livros surgiram, o mercado evoluiu, mas o sistema editorial ficou em 1940, mesmo com as maravilhosas ferramentas de vendas que deixam todos milionários.

O sistema editorial não se renovou, apenas encheram os bolsos com a onda e quando mudou o governo, voltou a reclamar… do governo. Sim, reclamar do governo, pois eles vem diretamente de Marte, afinal, o povo não é responsável por isso. Resta reclamar.

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu…

O sistema editorial sempre enfrentou crises por não modificar o método produtivo e o sistema de distribuição, a começar pelo autor que “doa” a obra, entendam que estou usando termos simples para exemplificar uma realidade, pois ela é mais complexa, como por exemplo essa deficiência de pagamento dos autores gera apenas uma classe social escrevendo, logo, o pensamento do povo brasileiro é calado.

A solução tem sido dada por gente mais nova, que utiliza as redes para movimentar o mercado editorial dentro de um sistema participativo. Agora vem a gritaria de alguns eruditos de dentro do gramofone a canção riscada de que… “Mas veja bem… não tem qualidade”.

Esse tipo de gente vê no revisor apenas um corretor ortográfico, pensa que internet não funciona, não sabe a diferença entre Pierre Weil e o manual do controle remoto, não viram o tempo passar e querem falar sobre qualidade? Não, vocês não podem falar sobre qualidade. Teriam antes disso, que aprender a formular produtos. Sua escrita perfeita não salvou o mercado.

O sistema editorial vai achar novamente uma solução, mas que passa pelo entendimento de que não se vende livro como se vende um liquidificador, que não é só numa mesa de algum bar em Paris que existem escritores e que o pensamento de valor não está só nas reuniões que acontecem tomando uísque, na beira da piscina.

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