A falha na divulgação de autores

Sobre a verticalização do mercado editorial, que está passando FAX do alto da montanha.

Carlos Garcia Fernandes, 47 anos, produtor de conteúdo multimídia

Sou produtor de conteúdo multimídia e minha maior experiência é na área editorial. Foram-se 15 anos fazendo de tudo um pouco, jornais, revistas e livros desde a formulação do produto, projeto gráfico até a diagramação e publicidade. Sei desenhar mas não sei escrever. Mas… produção de conteúdo não é só escrever? Quando converso sobre produtos editoriais digitais e seus derivados, sobre meios horizontais de produção editorial e as diferenças entre conteúdo e propaganda, preciso sempre alertar… então… veja bem… é doloroso mas… o mundo mudou.

A vivência na área editorial me fez respeitar cada área profissional, principalmente da escrita, sei a diferença entre o jornalista, o escritor e o revisor. Mesmo com 15 anos de estrada, ainda pergunto para toda gráfica que vou tratar pela primeira vez como ela quer o arquivo de impressão, e se precisarem de alguma modificação na estrutura do arquivo que conversem comigo, vamos manter o diálogo aberto, isso não é medo, não é fraqueza, o nome disso é respeito.

Comecei no mundo analógico e mergulhei no digital, pois a cada passo encontrava as diferenças profundas que o impacto digital faria – e fez – no ramo editorial. Não sabia definir exatamente, mas no começo já entendia que existiram mudanças, pois o mundo jamais voltaria a ser como era, ou seja, verticalizado. Igual ao resto do mundo, o acesso à informação fez a maior mudança na área editorial pois diferente do que se diz, as redes sociais não deram voz a legiões de idiotas, elas sim fizeram existir aquela voz que diz o contrário e o ego não suporta.

50 anos de estágio

A observação do mundo não é uma coisa simples, pois a frase que mais ouço é aquela que parece um carimbo da Segunda Revolução Industrial “Estou aqui há 50 anos e você quer me dizer o que fazer?”… Sim.

Sabia que ilustrador também é autor? Sabia que celular grava vídeo?

O início da cadeia de produção de um livro é o escritor, é como se fosse a “matéria prima” e ainda hoje é tratado como óleo para colocar no motor, tem bastante então deve ser barato ou de preferência, grátis. Outra profissão que o ramo editorial desqualifica é o revisor, justamente o elo que orienta profundamente a versão final de um livro.

A justificativa é de que não tem dinheiro para pagar o autor devidamente, então o pagamento será feito com divulgação. Então a análise direta é que durante 50 anos no ramo ainda não teve a magnífica ideia de fazer um caixa para pagar escritores? Não que operar no vermelho durante 50 anos seja um defeito, pois a primeira missão de uma empresa é existir, mas simplesmente aceitar isso como característica inerente ao ramo é sinal claro de estagnação conceitual.

O segredo da vida do universo e tudo mais é 42

Não vou inventar a roda, o fogo e o grafeno. A resposta para o segredo do universo já se sabe que é 42, admiro quem faz muito com pouco então vamos falar do pagamento com divulgação.

O autor terá o nome na capa do livro, terá foto e nome no site, receberá alguns exemplares para distribuir para os amigos e a promessa de que se alguém precisar de escritor ele será indicado.

Também será convidado para o evento de lançamento, se o autor morar no Rio Grande do Sul e o evento acontecer no Ceará o convite continua de pé.

O único dinheiro que pode entrar é a participação nas vendas, as tiragens geralmente são entre 1000 e 3000 exemplares e o valor da participação é tão incerto quanto os custos de impressão que vão dos absurdos até as dificuldades reais como o custo do papel, tinta e os mistérios dos aumentos fantásticos na energia elétrica.

O que é divulgar? Se observarmos o que isto significa e o que é feito para os autores, fica claro que não chega perto das possibilidades de divulgação.

Gravar um vídeo com o celular e colocar nas plataformas gratuitas passa pela barreira do ego, que manda tudo ser lindo como a novela das 8. Já vi projetos importantíssimos afundarem por esse tipo de ego. Tudo tem um início, mas se quiser começar por cima e exigir a qualidade perfeita, então libera essa grana.

A divulgação requer um plano que deveria ser traçado principalmente de acordo com as necessidades do autor e as possibilidades existentes. Gravar um vídeo não é mais um mistério. Existem programas de edição gratuitos e  tutoriais disponíveis, só não dá para fazer a novela das 8.

Sobre como gravar vídeos com celulares tem tutoriais disponíveis também. Transmissões ao vivo devem ser consideradas.

Poderia ser acertado por exemplo, um período de um ano, onde aconteceriam uma série de vídeos curtos com o autor, postagens de diversos materiais em redes sociais com a foto do autor e frases do livro, várias entrevistas curtas onde o autor fala de novos projetos, meios de contato, outros assuntos que realmente lhe interessem e não somente a divulgação do livro.

Os autores gostariam de falar profundamente sobre outros assuntos? Gostariam de comentar outras obras? Um podcast é mais difícil de gravar, mas não é impossível, não precisa ser presencial, novamente cito as ferramentas e tutoriais gratuitos.

Nos sites das editoras, onde está a página dos autores? Novamente parece a estratégia de trabalhar de graça, mas o autor tem algum interesse em ter uma coluna onde ele fale de assuntos de interesse próprio? Ele foi bom o suficiente para um livro mas não pode ter um espaço próprio? São o tipo de perguntas a serem feitas aos autores, são espaços a serem oferecidos a quem não recebeu o suficiente pelo livro principalmente se for um autor iniciante.

O que mais um livro vende? Vamos quebrar a cabeça e descobrir isso, pois se a maior fatia financeira do livro é da editora, poderia se inverter o percentual a favor do autor nos produtos derivados da obra. Se a resposta a isso não apareceu imediatamente então não existe? Todos os bons desenvolvimentos levam tempo, e os 50 anos no ramo só contam se somar o mundo atual.

Se eu não sei como fazer, não quer dizer que isso não exista.

Falar é fácil

Sim, falar é fácil. E quando as ferramentas estão disponíveis e a mudança do mundo é óbvia, trabalhar de uma maneira diferente é a parte difícil. Muita gente tem medo de perder o controle das coisas e não levar o troféu de grande ideia do ano. Algumas editoras tem medo de perder a posição – não entenderam, já foi perdida – que é serem a peça fundamental para a publicação de um livro.

Se é um fato que não existe dinheiro, então o trabalho colaborativo respeitando as necessidades individuais é necessário.

O mundo não é mais exclusivamente verticalizado, não existem mais decisões vindas somente do alto da montanha.

A realização demanda planejamento e muita vontade de estudar. Conteúdo e propaganda hoje são coisas diferentes, não precisa tudo ser feito de acordo com as “regras de postagem”. O texto do autor no site não precisa ser distorcido por um monte de palavras-chave do departamento que deixa todo mundo rico, assim como o livro não pode ser destruído por um título que vende mais, pois será comprado pelas pessoas erradas que farão uma avaliação negativa, pois o título prometeu uma coisa e o texto entregou outra. Eu mesmo gostaria de ter uma ideia nova, pois todo esse texto parece ser do início da internet no Brasil, mas é triste ver como algumas editoras estão vendendo livros com a estratégia para geladeiras e liquidificadores, e ainda estão usando a internet para passar FAX… do alto da montanha.

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